Poder público, sindicatos e políticos serão os responsáveis pelo resultados da uberização

Engana-se quem acha que a uberização angite somente o táxi

A mobilidade de uma cidade só atinge seu ápice com um transporte de massa de média e alta capacidade,
ônibus, metrô e trem, essa prioridade do município de oferecer estes tipos de transporte, constam no plano diretor da cidade e no plano municipal de mobilidade urbana, se engana quem achava que o serviço de transporte por aplicativo afetou diretamente só o táxi, veja a seguir alguns trechos de uma publicação do Diário Oficial da Cidade de São Paulo, onde o próprio município já admite interferência no serviço de transporte público por ônibus e nada está fazendo para limitar os veículos particulares dos aplicativos.

“…Temos vários elementos tecnológicos novos atuando na mobilidade”.

“Para os próximos dez ou vinte anos, os ônibus surgem com uma verdadeira incógnita, se considerarmos a alteração que essa tecnologia fará nas viagens urbanas, o que fatalmente trará consequências para o sistema público de transporte do Município de São Paulo” – referindo-se ao carro autônomo, táxi aéreo por helicóptero. “O que está em andamento configura uma revolução tecnológica silenciosa da mobilidade e essa revolução já está afetando e afetará cada vez mais o sistema ônibus”.

“Sendo necessário chamar a atenção para a necessidade imperiosa de haver melhores indicadores, dados mais consistentes, quanto ao número de passageiros transportados do sistema de ônibus, o número de gratuidades e o número de passageiros pagantes, isto porquê os passageiros pagantes são exatamente aqueles que podem alterar seu padrão de comportamento e de opção, em virtude das novas tecnologias e dos novos modais de transporte individual. “Faz se necessário que a Secretária de Municipal de Transportes e a SPTRANS ofereçam dados consistentes sobre os passageiros transportados e que isso seja objeto de acompanhamento e analises de forma sistêmica”. D.O. DE 25/07/18

“Há uma revolução em andamento na mobilidade, e surgem uma série de análises e estudos, inclusive  internacionais, indicando que, na maioria das grandes cidades do mundo, tem havido uma queda no número de passageiros e uma queda das receitas tarifárias dos serviços públicos de transporte”. “Aparentemente, isso está ligado a mudança nas práticas de mobilidade, que ainda não está inteiramente mapeados e identificados, mas há indícios de que os aplicativos de mobilização de corridas como Uber, Cabify e 99 estão tendo um papel na diminuição do número de passageiros do transporte público em muitas grandes cidades do mundo.” D.O. DE 21/08/18:

“Em algumas cidades norte americanas está sendo experimentada essa modalidade de serviço
Uber que não é porta a porta, mas sim área-a-área”.

“O interessado aciona o aplicativo e é orientado a se dirigir a um ponto de embarque próximo do local em que ele está, e ele também será desembarcado em um ponto próximo de seu destino”. “Esta modalidade, inclusive, faz com que o usuário tenha um comportamento semelhante ao usuário do ônibus; ele andará até um determinado ponto de embarque e depois andará do ponto de desembarque até o seu destino final”. “Esta modalidade já foi lançada pela Uber com o nome de “Uber Juntos” em outubro de 2018 onde prometem uma tarifa 40% mais barata que o Uber X e concorre diretamente com o ônibus”. D.O. DE 25/08/18

“Seria oportuno que a Secretaria de Transportes e a SPTrans trouxessem elementos acerca de
como está notando isso” – o que é essa verdadeira revolução da mobilidade que está em andamento nas cidades do mundo. Isso diz respeito a experimentos avançados e uma perspectiva de introdução do carro autônomo – que já está se iniciando e que virá aceleradamente – e, em particular, a interferência dos aplicativos de mobilização de viagens por automóveis”.

Os aplicativos que, em são Paulo, são principalmente Uber, Cabify e 99 estão com a sua utilização em expansão.

Fica evidente que alguma concorrência esses aplicativos exercem em relação aos serviços de ônibus, existem dados de diminuição do número de passageiros transportados e do número de passageiros pagantes, seria bom senso fazer algo, e que já deveria estar sendo feito pela Secretária de Transportes e a SPTRANS, ou seja,  o monitoramento e analise do impacto da “revolução da mobilidade” em relação ao sistema de Ônibus – coisa que não acontece.

Entretanto, diante desta constatação, é inadmissível classificarem o serviço de transporte por aplicativo, como “uma revolução tecnologia”, uma vez que nada introduzem de inovação em sua ação, visto que utilizam o mesmo equipamento rodante que o táxi (automóvel) e com a mesma capacidade de transporte, até 07 lugares, invadindo, portanto, espaço que é do centenário táxi. E vamos além, avanço tecnológico é no máximo, o de interconexão, cujo papel nós taxistas já utilizávamos.

E vimos também acima, que o crescimento descontrolado da frota a serviço dos aplicativos, já está impondo custos diretos e indiretos a toda a sociedade. Um deles impactará diretamente nas gratuidades do transporte público – passageiros pagantes subsidiam as gratuidades- e outro de suma importância, é a saturação da capacidade viária, cujo insumo é limitado, ruas avenidas, pontes, viadutos estão atrelados à mobilidade da cidade. Fora que o consumo indiscriminado da capacidade criada, trará consequências no “tempo de vida útil” de cada projeto a ser implantado para melhoria do viário, se nada for feito agora.

No caso do trânsito, indica o tempo que uma intervenção viária atingirá a saturação, ou tornar-se-á obsoleto,
não mais atendendo a demanda, ou seja, quanto maior a saturação, menos resultado para a fluidez da mobilidade e menos tempo estas intervenções durarão. Os aplicativos falseiam quando apregoam que são “benéficos” a mobilidade. Vejamos abaixo, a aberração que está infelizmente se concretizando, onde o município, mesmo estando ciente das consequências danosas que os aplicativos estão trazendo para o transporte público, mesmo assim, com sua omissão, está de uma certa forma, incentivando a migração dos modais de massa pela individual por aplicativos.

01 ônibus articulado mede 23 metros, transporta 120 passageiros, um veículo por app mede 4m, transporta no máximo 4 passageiro por carro, para este modal,  absorver os 120 passageiros do ônibus, são necessários 30 carros ou seja, 30 carros x 4 m 120m utilizados do viário. Destes 120m cabem 06 ônibus de 23m, onde no total o ônibus transportaria 720 passageiros no mesmo espaço.

Considerando que na maioria dos carro de aplicativos transportam somente uma pessoa temos uma diferença significante entre os dois modais. O que vimos no exemplo acima, acarretará a extensão do horário de pico nos deslocamentos, diminuição da velocidade, aumento da extensão quilométrica e dos índices de  congestionamentos, ou seja, o caos.

Ademais, existe o desgaste do viário (asfalto), que serão danificados em tempo recorde, uma vez que seu uso tem um planejamento por uso determinado e esse tempo será reduzido de forma drástica, trazendo este custo excedente para a população, através dos impostos. E mesmo pagando por um transporte mais barato, a população deixará de ter algum benefício prioritário que estes impostos poderiam trazer, justamente para poder corrigir e recuperar o viário, que será destruído pela quantidade de veículos rodando o tempo todo.

Viram porquê o viés técnico se faz necessário nesta regulamentação do transporte individual por aplicativos? Afinal o mesmo garantirá que cada modal possa cumprir com seu papel, com eficiência e equilíbrio do viário local, sem que haja desequilíbrio. E vimos também na matéria citada do Diário Oficial que os órgãos capazes para executar este estudo são a Secretaria Municipal de Transportes, em conjunto com a SPTrans e CET.

E se mesmo assim o município permitir uma regulamentação dos motoristas por aplicativos, que possa acentuar os transtornos já presentes, o nome de cada um dos envolvidos deverá ser lembrado e responsabilizado, pois nenhum interesse privado, seja qual for pode prevalecer sobre o interesse público.

Eliane Ratta é taxista em SP

Fontes: Táxi x Uber Conflito visto sob a perspectiva do binômio trânsito / transporte

Diário Oficial do município

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